Nossos sonhos, mesmo aqueles inatingíveis, merecem ser cultivados e também divididos. Assim, quem sabe, eles se tornem possíveis.
Ler Mario Quintana é uma das alegrias da minha vida. Ele escreve com a leveza de um pássaro. Ele mesmo confessou sua condição alada ao escrever: “Todos esses aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão, eu passarinho...”. Mario Quintana escreve de forma que até uma criança entende ao lê-lo. As coisas complicadas, eles as despe até que apareçam na simplicidade da sua nudez.
Veja, por exemplo, esta quadra, que recebeu o nome de “Das Utopias”: “Se as coisas são inatingíveis...ora! Não é motivo para não quere-las.../ Que tristes os caminhos, se não fora/ A mágica presença das estrelas”.
É noite. Tudo está escuro ao nosso redor. Nem mesmo se vê o caminho que nossos pés pisam ao olhar para o chão. Mas olhando para o alto, para o céu escuro, vemos a estrela inatingível. Pode muito bem ser que, dependendo dos anos-luz que a separam da nossa Terra, ela já tenha deixado de existir por milhares de anos. Permanece apenas a sua luz. Assim fizeram os Magos, que seguiam a direção da estrela nos céus para encontrar o Deus-criança na terra. E era assim que faziam os navegadores, no mar escuro.
É o sonho inatingível que nos faz andar. Os caminhantes ganham força comendo o que não existe. O que não existe tem poder. Valéry entendeu: “Que seria de nós sem o socorro do que não existe?”.
Fernando Pessoa disse que é assim que acontece: “Deus quer. O homem sonha. A obra nasce”.
Mas eu sou velho. Velhice é o tempo em que já não se cobram obras dos velhos. Porque a obra leva tempo e aos velhos o tempo falta. Falta-me tempo. Sobram-me, entretanto, os sonhos. Minha missão de educador é repartir com meus discípulos os meus sonhos. Quero apontar-lhes a estrela. Uma estrela apenas. As muitas estrelas confundem os caminhantes. E o meu sonho – sonho que me dá alegria ao pensar na possibilidade da sua realização – é muito simples. Sonho com um jardim.
Os poemas sagrados dizem que foi um sonho que fez com que o Criador criasse um jardim. Se ele sonhou com um jardim é porque jardins não havia. E Deus se sentiu infeliz. Da sua infelicidade surgiu o sonho. E do sonho, a obra. Criou o Universo imenso, bilhões de astros girando num tempo infinito. Mas essa imensidão esmagadora não era bela nem manda. Assim, o Criador foi afunilando a sua obra até chegar a um pequeno espaço, a nossa Terra, onde plantou um jardim. Plantado o jardim, dizem os textos sagrados, Deus viu, sorriu e disse: “É muito bom”. E foi nesse Paraíso que ele colocou duas crianças, um homem e uma mulher, para gozar as delícias do jardim. Quem caminha por um jardim sabe que o nosso destino é a felicidade. No jardim, o nosso corpo faz amor com a natureza.
E para que o nosso prazer com a natureza fosse múltiplo o Criador colocou em nossos corpos esses órgãos eróticos a que damos o nome de sentidos. Os olhos, para fazer amor com as cores, com as formas. Os ouvidos, para os prazeres das canções e do barulho dos riachos. Através do nariz somos penetrados pelos perfumes. A boca se deleita com o mel e com o beijo. E a água do mar agrada a nossa pele... O jardim nos diz que estamos destinados ao prazer.
E o Criador nos deu a vocação suprema: vivemos para ser jardineiros. Existimos para acariciar a terra, para amansá-la, para fertilizá-la, para engravidá-la, para torná-la bela. O Milton Nascimento estava certo. Também a Terra tem cio! Ela nos deseja.
A natureza em si mesma é cruel, bruta e insensível. Ela mata sem dó os distraídos. Mas o jardim é o lugar onde o homem e a natureza se tornam amantes.
Todas as outras vocações estão a serviço desta vocação suprema: plantar e cuidar do jardim, lugar onde os homens, as mulheres e as crianças fazem amor com a natureza.
Mas que coisas horríveis fizemos com a nossa amante! Os homens se esqueceram dela, da Terra, e a trocaram por prostitutas. E até já se anuncia o momento próximo em que sua beleza e sua fertilidade se extinguirão, como resultado daquilo que os homens estão a lhe fazer.
Sonho – não me importa que seja um sonho intangível – com o renascimento do amor antigo, quando os homens olharão para a natureza com os olhos encantados e sofrerão ao vê-la violentada pelos vândalos que a estupram em nome do crescimento econômico.
Sonho com o dia em que as escolas, deixando de lado tudo o que a tradição escolar acumulou e endureceu, se transformarão em “escolas de jardinagem”, em que as crianças, desde pequenas, serão ensinadas a amar e a cuidar da nossa Terra. Por que se a Terra não for cuidada, se a Terra, nossa mãe, morrer, de que servirão todos os outros saberes acumulados? Por acaso saberemos viver em desertos? Esse será o dia em que desejaremos morrer.
Sonho com o dia em que as religiões abandonarão os seus templos e não mais pedirão favores aos deuses. Nesse dia elas compreenderão que no Paraíso, o jardim divino, não havia templos porque Deus andava pelo meio das árvores e se deleitava no prazer do vento fresco da tarde.
Sonho com o dia em que não mais diremos “bom dia” ao nos encontrar e diremos antes “como a nossa Terra é bela!”.
Velho, minhas mãos estão vazias de obras... Mas meu coração está cheio de sonhos. É o que tenho para dar.
Palavra de fé: “Presta atenção às minhas palavras, aplica teu coração à minha doutrina, porque é agradável que as guardes dentro do teu coração e que elas permaneçam, todas presentes em teu lábios”. (Provérbios 22, 17-18)
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quarta-feira, 20 de outubro de 2010
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Mestre, fale-nos de Deus
Uma história do Mestre Benjamim
A tenda do Mestre Benjamim estava cheia. Uma velhinha de voz trêmula e pele cheia de rugas lhe pediu: “Mestre, fale-nos sobre Deus...”.
Mestre Benjamim fez silêncio. Olhou para vazio. Vagarosamente um sorriso foi se abrindo.
“Quantas pessoas aqui, na minha tenda, estão pensando no ar? Por favor, levantem uma mão...”. Ninguém levantou a mão.
“Ninguém levantou a mão... Ninguém está pensando no ar. E, no entanto, todos nós o estamos respirando. O ar é a nossa vida e não precisamos pensar nele em dizer o seu nome para que ele nos dê vida. Mas o homem que se afoga no fundo das águas só pensa no ar. Deus é assim. Não é preciso pensar nele e pronunciar o seu nome. Ao contrário, quando se pensa nele o tempo todo é porque está se afogando...
“Que desejamos para os nossos filhos? Que eles sejam felizes. Sorrimos ao vê-los por aí correr, a pular, a cantar, a brincar, pensando nas coisas de criança. Mas enquanto brincam e riem eles não pensam em nós. Se um filho ao se levantar viesse até você e o elogiasse, e agradecesse porque você lhe deu a vida e jurasse amor para sempre, e fizesse a mesma coisa na hora do almoço, e repetisse os mesmos gestos e palavras ao meio da tarde, e de noite fizesse tudo de novo, suspeitaríamos de que alguma coisa não está bem. O que desejamos é que eles gozem a vida sem pensar em nós. Quem pensa demais e fala demais sobre Deus é porque não o está respirando.
Fez-se silêncio. Foi quando uma lufada de vento entrou pela tenda, fazendo balançar a lâmpada de óleo que pendia o teto.
“Deus é como o vento. Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos a sua música nas folhas das árvores e o seu assobio nas gretas das portas. Mas não sabemos de onde vem nem para onde vai. Na flauta o vento se transforma em melodia. Mas não é possível engarrafá-lo em lugares fechados a que eles dão o nome de “casa de Deus”. Mas se Deus mora numa casa estará ele ausente do resto do mundo? Vento engarrafado não sopra...”.
Ouviu-se então o pio distante de uma coruja.
“Deus é como um pássaro encantado que nunca se vê. Só se ouve o seu canto...”. “Deus é uma suspeita do nosso coração de que o universo tem um coração que pulsa como o nosso. Suspeita... Nenhuma certeza. Deus nos deu asas. Mas as religiões inventaram gaiolas.
Tudo o que vive é pulsação do sagrado. As aves do céu, os lírios dos campos... Até o mais insignificante grilo, no seu cricri rítmico, é uma música do Grande Mistério.
É preciso esquecer os nomes de Deus que as religiões inventaram para encontrá-lo sem nome no assombro da vida.
Não precisamos dizer o nome “rosa” para sentir o seu perfume.
Muitas pessoas que jamais pronunciam o nome de Deus o conhecem como reverência pela vida.
Há pessoas que se sentem religiosas por acreditarem em Deus. De que vale isso? Os demônios também acreditam e estremecem ao ouvir o seu nome (Tiago 2,19).
Os homens religiosos, quando alguém morre, dizem: “Deus o levou para si”. Então, enquanto vivo, ele estava distante de Deus? Deus é Deus dos mortos ou Deus dos vivos? Deus não mora no mundo dos mortos. Ele mora no nosso mundo, passeia pelo jardim. Deus é beleza. Quer ver Deus? Veja a beleza do Sol que se põe, sem pensar em Deus.
Quer ouvir Deus?
Entregue-se à beleza da música, sem pensar em Deus.
Quer sentir o cheiro de Deus? Respire fundo o cheio do jasmim, sem pensar em Deus.
Quer saber como é o coração de Deus? Empurre uma criança num balanço porque Deus tem o coração de criança, sem pensar em Deus.
Há beleza demais no Universo. Mas o tempo vai-nos roubando as coisas que amamos. Vai-se o arbusto, vai-se a montanha, vão-se os riachos cristalinos, vão-se as pessoas amadas, vamos nós... O tempo é um monstro que devora os seus filhos. Fica a saudade. Saudade é a presença da ausência das coisas que amamos e nos foram roubadas pelo tempo. Quando se pronuncia o nome sagrado, está se afirmando que a beleza amada não está perdida no passado. Está escrito num poema sagrado: “Lança o teu pão sobre ás águas porque depois de muitos dias o encontrarás...” (Eclesiastes 11,1).
As águas dos rios são circulares, o tempo é circular, o que foi perdido volta, um eterno retorno... Deus existe para nos curar da saudade...
Eu gostaria de dar um conselho: “Não sejam curiosos a respeito de Deus, pois eu sou curioso sobre todas as coisas e não sou curioso a respeito de Deus. Não há palavra capaz de dizer quando eu me sinto em paz perante Deus e a morte. Escuto e vejo Deus em todos os objetos, embora de Deus eu não entenda nem um pouquinho... Eu vejo Deus em cada uma das vinte e quatro horas e em cada instante de cada uma delas, nos rostos dos homens e das mulheres eu vejo Deus...” (Walt Whitman). “Sejamos simples e calmos como os regatos e as árvores, e Deus amar-nos-á fazendo de nós belos como as árvores e os regatos, e dar-nos-á verdor na sua primavera e um rio aonde ir ter quando acabemos” (Alberto Caeiro).
Ouvidas essas palavras a velhinha sorriu pra o Mestre Benjamim e fez um gesto com a sua mão, abençoando-o.
A tenda do Mestre Benjamim estava cheia. Uma velhinha de voz trêmula e pele cheia de rugas lhe pediu: “Mestre, fale-nos sobre Deus...”.
Mestre Benjamim fez silêncio. Olhou para vazio. Vagarosamente um sorriso foi se abrindo.
“Quantas pessoas aqui, na minha tenda, estão pensando no ar? Por favor, levantem uma mão...”. Ninguém levantou a mão.
“Ninguém levantou a mão... Ninguém está pensando no ar. E, no entanto, todos nós o estamos respirando. O ar é a nossa vida e não precisamos pensar nele em dizer o seu nome para que ele nos dê vida. Mas o homem que se afoga no fundo das águas só pensa no ar. Deus é assim. Não é preciso pensar nele e pronunciar o seu nome. Ao contrário, quando se pensa nele o tempo todo é porque está se afogando...
“Que desejamos para os nossos filhos? Que eles sejam felizes. Sorrimos ao vê-los por aí correr, a pular, a cantar, a brincar, pensando nas coisas de criança. Mas enquanto brincam e riem eles não pensam em nós. Se um filho ao se levantar viesse até você e o elogiasse, e agradecesse porque você lhe deu a vida e jurasse amor para sempre, e fizesse a mesma coisa na hora do almoço, e repetisse os mesmos gestos e palavras ao meio da tarde, e de noite fizesse tudo de novo, suspeitaríamos de que alguma coisa não está bem. O que desejamos é que eles gozem a vida sem pensar em nós. Quem pensa demais e fala demais sobre Deus é porque não o está respirando.
Fez-se silêncio. Foi quando uma lufada de vento entrou pela tenda, fazendo balançar a lâmpada de óleo que pendia o teto.
“Deus é como o vento. Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos a sua música nas folhas das árvores e o seu assobio nas gretas das portas. Mas não sabemos de onde vem nem para onde vai. Na flauta o vento se transforma em melodia. Mas não é possível engarrafá-lo em lugares fechados a que eles dão o nome de “casa de Deus”. Mas se Deus mora numa casa estará ele ausente do resto do mundo? Vento engarrafado não sopra...”.
Ouviu-se então o pio distante de uma coruja.
“Deus é como um pássaro encantado que nunca se vê. Só se ouve o seu canto...”. “Deus é uma suspeita do nosso coração de que o universo tem um coração que pulsa como o nosso. Suspeita... Nenhuma certeza. Deus nos deu asas. Mas as religiões inventaram gaiolas.
Tudo o que vive é pulsação do sagrado. As aves do céu, os lírios dos campos... Até o mais insignificante grilo, no seu cricri rítmico, é uma música do Grande Mistério.
É preciso esquecer os nomes de Deus que as religiões inventaram para encontrá-lo sem nome no assombro da vida.
Não precisamos dizer o nome “rosa” para sentir o seu perfume.
Muitas pessoas que jamais pronunciam o nome de Deus o conhecem como reverência pela vida.
Há pessoas que se sentem religiosas por acreditarem em Deus. De que vale isso? Os demônios também acreditam e estremecem ao ouvir o seu nome (Tiago 2,19).
Os homens religiosos, quando alguém morre, dizem: “Deus o levou para si”. Então, enquanto vivo, ele estava distante de Deus? Deus é Deus dos mortos ou Deus dos vivos? Deus não mora no mundo dos mortos. Ele mora no nosso mundo, passeia pelo jardim. Deus é beleza. Quer ver Deus? Veja a beleza do Sol que se põe, sem pensar em Deus.
Quer ouvir Deus?
Entregue-se à beleza da música, sem pensar em Deus.
Quer sentir o cheiro de Deus? Respire fundo o cheio do jasmim, sem pensar em Deus.
Quer saber como é o coração de Deus? Empurre uma criança num balanço porque Deus tem o coração de criança, sem pensar em Deus.
Há beleza demais no Universo. Mas o tempo vai-nos roubando as coisas que amamos. Vai-se o arbusto, vai-se a montanha, vão-se os riachos cristalinos, vão-se as pessoas amadas, vamos nós... O tempo é um monstro que devora os seus filhos. Fica a saudade. Saudade é a presença da ausência das coisas que amamos e nos foram roubadas pelo tempo. Quando se pronuncia o nome sagrado, está se afirmando que a beleza amada não está perdida no passado. Está escrito num poema sagrado: “Lança o teu pão sobre ás águas porque depois de muitos dias o encontrarás...” (Eclesiastes 11,1).
As águas dos rios são circulares, o tempo é circular, o que foi perdido volta, um eterno retorno... Deus existe para nos curar da saudade...
Eu gostaria de dar um conselho: “Não sejam curiosos a respeito de Deus, pois eu sou curioso sobre todas as coisas e não sou curioso a respeito de Deus. Não há palavra capaz de dizer quando eu me sinto em paz perante Deus e a morte. Escuto e vejo Deus em todos os objetos, embora de Deus eu não entenda nem um pouquinho... Eu vejo Deus em cada uma das vinte e quatro horas e em cada instante de cada uma delas, nos rostos dos homens e das mulheres eu vejo Deus...” (Walt Whitman). “Sejamos simples e calmos como os regatos e as árvores, e Deus amar-nos-á fazendo de nós belos como as árvores e os regatos, e dar-nos-á verdor na sua primavera e um rio aonde ir ter quando acabemos” (Alberto Caeiro).
Ouvidas essas palavras a velhinha sorriu pra o Mestre Benjamim e fez um gesto com a sua mão, abençoando-o.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Um filho e seus presentes
Eu queria que meu corpo fosse como um ninho para o meu filho. Acolhida assim, a criança aprende que o Universo a protege e experimenta a bondade. Aí, sim, os filhotes podem voar seguros, com um futuro à sua frente.
Ter um filho é algo que muda a nossa vida de forma inexorável. Dali para a frente o coração caminhará por caminhos fora do seu corpo.
Lembrei-me dos meus sentimentos antigos de pai diante dos meus filhos adormecidos. Veio-me à mente a imagem de um ninho. Bachelard, o pensador mais sensível que conheço, escreveu sobre os ninhos. Imaginou que para o pássaro o ninho é uma cálida e doce morada, uma penugem externa antes que a pele nua encontre sua penugem corporal.
Era isso que eu queria ser. Eu queria que o meu corpo fosse um ninho-penugem que protegesse meus filhos.
Que felicidade enche o coração de um pai quando o filho que ele tem no colo se abandona e adormece! Deitada adormecida nos braços-ninho do seu pai a criança aprende que o Universo é um ninho! Não importa que não seja! Não importa que os ninhos estejam todos ao abandono! O ninho é uma fantasia eterna. “O ninho leva-nos de volta à infância, a uma infância!” (Bachelard).
É impossível calcular a importância desses momentos efêmeros na vida de uma criança. É impossível calcular a importância desses momentos efêmeros na vida de um pai. O pai que tem o seu filho adormecido nos seus braços é um poeta! Um homem que guarda memórias de um ninho na sua alma tem de ser um homem bom. Uma criança que guarda memórias de um ninho em sua alma tem de ser uma criança calma.
Mas logo o pequeno pássaro começará a ensaiar seus vôos incertos. Agora não serão mais os braços do pai, arredondados num abraço, que irão definir o espaço do ninho. Os braços do pai terão de se abrir para que o ninho fique maior. E serão os olhos do pai no espaço que irão marcar os limites do ninho. A criança se sente segura se, de longe, ela vê que os olhos do seu pai a protegem. Olhos também podem ser ninhos.
O que a criança deseja não é liberdade. O que ela deseja é excursionar, explorar o espaço desconhecido desde que seja fácil voltar. Tela de Van Gogh: é um jardim. Ao lado direito do jardim, mãe e criança que acabam de chegar. Ao lado esquerdo, o pai, jardineiro, agachado com os braços estendidos na direção do filho pequeno. É preciso que o pai esconda o seu tamanho, que ele esteja agachado para que seus olhos e os olhos do seu filho se contemplem no mesmo nível. A cena é como um acorde suspenso, que pede uma resolução. É certo que o filho largará a mãe da mãe e virá correndo para o pai... E a fantasia pinta a cena final de felicidade que o pintor não pode pintar: o pai pegando o filho no colo, os dois rindo de felicidade...
O tempo passa. Os pássaros tímidos aprendem a voar sem medo. É a adolescência. Pobre pai que continua a estender os braços para o filho adolescente. Adolescente não quer ninho. Adolescente quer asas. Voar, voar... A volta ao ninho é o momento que não se deseja. Porque a vida não está no ninho, está no vôo. Se eles procuram os olhos dos pais, não é para se certificarem de que não estão sendo vistos! Aos pais só resta contemplar, impotentes, o vôo dos filhos para onde eles mesmos não podem ir. E o pai se tranqüiliza e pode finalmente dormir ao ouvir, de madrugada, o barulho da chave na porta: “Ele voltou...”.
Mas chega o momento quando os filhos partem para não mais voltar. Através da minha janela vejo um ninho que rolinhas construíram nas folhas de uma palmeira. A pombinha está chocando seus ovos. Vejo sua cabecinha aparecendo fora do ninho. Mas numa outra folha da mesma palmeira há um outro ninho, abandonado. Esse é o destino dos ninhos, de todos os ninhos: o abandono.
Gibran Kahlil Gibran escreveu, no seu livro O Profeta, um texto dedicado aos filhos. Não sei de cor suas precisas palavras. Mas vou tentar reconstruí-las. É aos pais que ele se dirige.
“Vossos filhos não são vossos filhos. Vossos filhos são flechas. Vós sois o arco que dispara a flecha. Disparadas as flechas, elas voam para longe e o arco fica só”.
Este é o destino dos pais: a solidão. Os filhos partem para construir seus próprios ninhos e é a esses ninhos que eles deverão retornar.
Assim é com os bichos. Deveria ser conosco também. Mas não é. Quem é pai tem o coração fora de lugar, coração que caminha, para sempre, por caminhos fora do seu próprio corpo. Dito pela Adélia: “Pior inferno é ver um filho sofrer sem poder ficar no lugar dele”. Dito pelo Vinícius, escrevendo ao filho: “Eu, muita noites, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua”.
Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho. Eu mesmo sempre os empurrei para fora.
Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas.
Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira...
Mas o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo...
Ter um filho é algo que muda a nossa vida de forma inexorável. Dali para a frente o coração caminhará por caminhos fora do seu corpo.
Lembrei-me dos meus sentimentos antigos de pai diante dos meus filhos adormecidos. Veio-me à mente a imagem de um ninho. Bachelard, o pensador mais sensível que conheço, escreveu sobre os ninhos. Imaginou que para o pássaro o ninho é uma cálida e doce morada, uma penugem externa antes que a pele nua encontre sua penugem corporal.
Era isso que eu queria ser. Eu queria que o meu corpo fosse um ninho-penugem que protegesse meus filhos.
Que felicidade enche o coração de um pai quando o filho que ele tem no colo se abandona e adormece! Deitada adormecida nos braços-ninho do seu pai a criança aprende que o Universo é um ninho! Não importa que não seja! Não importa que os ninhos estejam todos ao abandono! O ninho é uma fantasia eterna. “O ninho leva-nos de volta à infância, a uma infância!” (Bachelard).
É impossível calcular a importância desses momentos efêmeros na vida de uma criança. É impossível calcular a importância desses momentos efêmeros na vida de um pai. O pai que tem o seu filho adormecido nos seus braços é um poeta! Um homem que guarda memórias de um ninho na sua alma tem de ser um homem bom. Uma criança que guarda memórias de um ninho em sua alma tem de ser uma criança calma.
Mas logo o pequeno pássaro começará a ensaiar seus vôos incertos. Agora não serão mais os braços do pai, arredondados num abraço, que irão definir o espaço do ninho. Os braços do pai terão de se abrir para que o ninho fique maior. E serão os olhos do pai no espaço que irão marcar os limites do ninho. A criança se sente segura se, de longe, ela vê que os olhos do seu pai a protegem. Olhos também podem ser ninhos.
O que a criança deseja não é liberdade. O que ela deseja é excursionar, explorar o espaço desconhecido desde que seja fácil voltar. Tela de Van Gogh: é um jardim. Ao lado direito do jardim, mãe e criança que acabam de chegar. Ao lado esquerdo, o pai, jardineiro, agachado com os braços estendidos na direção do filho pequeno. É preciso que o pai esconda o seu tamanho, que ele esteja agachado para que seus olhos e os olhos do seu filho se contemplem no mesmo nível. A cena é como um acorde suspenso, que pede uma resolução. É certo que o filho largará a mãe da mãe e virá correndo para o pai... E a fantasia pinta a cena final de felicidade que o pintor não pode pintar: o pai pegando o filho no colo, os dois rindo de felicidade...
O tempo passa. Os pássaros tímidos aprendem a voar sem medo. É a adolescência. Pobre pai que continua a estender os braços para o filho adolescente. Adolescente não quer ninho. Adolescente quer asas. Voar, voar... A volta ao ninho é o momento que não se deseja. Porque a vida não está no ninho, está no vôo. Se eles procuram os olhos dos pais, não é para se certificarem de que não estão sendo vistos! Aos pais só resta contemplar, impotentes, o vôo dos filhos para onde eles mesmos não podem ir. E o pai se tranqüiliza e pode finalmente dormir ao ouvir, de madrugada, o barulho da chave na porta: “Ele voltou...”.
Mas chega o momento quando os filhos partem para não mais voltar. Através da minha janela vejo um ninho que rolinhas construíram nas folhas de uma palmeira. A pombinha está chocando seus ovos. Vejo sua cabecinha aparecendo fora do ninho. Mas numa outra folha da mesma palmeira há um outro ninho, abandonado. Esse é o destino dos ninhos, de todos os ninhos: o abandono.
Gibran Kahlil Gibran escreveu, no seu livro O Profeta, um texto dedicado aos filhos. Não sei de cor suas precisas palavras. Mas vou tentar reconstruí-las. É aos pais que ele se dirige.
“Vossos filhos não são vossos filhos. Vossos filhos são flechas. Vós sois o arco que dispara a flecha. Disparadas as flechas, elas voam para longe e o arco fica só”.
Este é o destino dos pais: a solidão. Os filhos partem para construir seus próprios ninhos e é a esses ninhos que eles deverão retornar.
Assim é com os bichos. Deveria ser conosco também. Mas não é. Quem é pai tem o coração fora de lugar, coração que caminha, para sempre, por caminhos fora do seu próprio corpo. Dito pela Adélia: “Pior inferno é ver um filho sofrer sem poder ficar no lugar dele”. Dito pelo Vinícius, escrevendo ao filho: “Eu, muita noites, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua”.
Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho. Eu mesmo sempre os empurrei para fora.
Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas.
Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira...
Mas o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo...
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