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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

As palavras e o Ser Humano

"No início, era o Verbo": todos nós conhecemos esta frase da Bíblia. O mais interessante é que Deus não é comparado com uma figura, um efeito da natureza, e sim com uma expressão gramatical. No meu ofício de escritor, sou obrigado a concentrar-me na importância das palavras, mas creio que todo ser humano deva sempre prestar atenção ao que diz e ao que ouve.

Precisamos dividir. Mesmo que sejam informações que todos já saibam, é importante não se deixar levar pelo pensamento egoísta de chegar sozinho ao fim da jornada. Quem faz isto, descobre um paraíso vazio, sem qualquer interesse especial – e em breve estará morrendo de tédio.

Não podemos pegar as luzes que iluminam o caminho e carregar conosco. Se agirmos assim, vamos encher nossas mochilas com lanternas, e teremos que nos livrar do alimento que nos dá força para seguir adiante: amor.

Precisamos receber estímulos, conselhos, informações. Mas às vezes, por insegurança, interrompemos uma conversa no meio, com medo de mostrar ao nosso interlocutor que desconhecemos aquele assunto. Qual o problema de aprender? Por que nos sentimos humilhados quando alguém toca em temas que desconhecemos? Ninguém tem obrigação de conhecer tudo.

Disse Albert Einstein: "Cem vezes por dia eu me lembro que minha vida interior e minha vida exterior dependem do trabalho que outros homens estão fazendo agora. Por causa disso, preciso me esforçar para retribuir pelo menos uma parte desta generosidade – e não posso deixar nenhum minuto vazio."

E, enquanto não inventarem um novo processo de comunicação mais direto que a palavra, teremos que nos contentar com ela, mesmo que às vezes seja pobre demais para descrever o que sentimos. O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade diz, em uma carta ao seu neto:

"Admiro que ame nos vegetais a carga de silêncio, Luis Maurício / Mas há que tentar o diálogo, quando a solidão é um vício."

Conheço pessoas que não dão importância à palavra. Mas conheço também pessoas que têm medo das palavras.

Sim, é verdade que às vezes dizemos: "Puxa, faz tempo que não discuto com fulano"; ou "nunca mais tive uma gripe". De repente, no dia seguinte, pegamos uma gripe ou discutimos com fulano.

Então concluímos: se comentarmos as coisas boas que acontecem conosco, isto trará má sorte.

Nada disso. Na verdade, antes de qualquer problema, a Alma do Mundo nos mostra quanto tempo ficamos sem nos aborrecer com determinada coisa. Ela quer nos dizer como a vida tem sido generosa até aquele momento – e continuará sendo, se superarmos com bravura o obstáculo.

Fale. Dialogue. Participe. Nada mais desprezível que o "observador" acomodado e covarde. Sua coragem em expressar opiniões vai lhe ajudar a crescer em qualquer dificuldade. Fale das coisas boas da sua vida para todos que quiserem ouvir: a Alma do Mundo precisa muito de sua alegria; Deus ficará contente ao ver seu sorriso. Fale dos momentos difíceis que pode estar vivendo: dê uma chance aos outros de dar aquilo que você precisa, nem que seja apenas uma frase de conforto.

A palavra é poder. As palavras transformam o mundo e o homem. Os vencedores falam com orgulho dos milagres de suas vidas. Quanto mais energia positiva ao seu redor, mais energia positiva será atraída, e mais alegres vão ficar aqueles que lhe querem bem. Quanto aos invejosos, aos derrotados – estes só poderão lhe causar algum dano se você lhes der este poder.

"Minha dança, minha bebida, e meu canto, são o colchão onde minha alma repousará, quando voltar ao mundo dos espíritos", diz um sábio indonésio.

Portanto, use verbos, sujeitos, predicados, e cante suas alegrias e tristezas, mas cante todos os dias de sua vida.





Palavra de fé: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus”. (João 1,1)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A árvore da imortalidade

Conta o famoso poeta persa Rumi que certo dia, em uma aldeia do Norte do atual Irã, apareceu um homem contando histórias sobre uma árvore cujos frutos davam imortalidade a quem os comesse.

A notícia logo chegou aos ouvidos do rei, mas antes que ele pudesse pedir a localização exata de tal prodígio da natureza, o viajante já havia partido.

O rei, entretanto, estava decidido a tornar-se imortal, pois queria ter tempo suficiente de transformar o seu reino em um exemplo para todos os povos do mundo. Quando ainda jovem, sonhara em fazer desaparecer a pobreza, ensinar a justiça, alimentar cada um dos seus súditos, mas logo se deu conta de que este trabalho durava mais de uma geração. Entretanto, a vida tinha lhe dado uma chance, e não iria deixar que ela lhe escapasse.
Chamou o homem mais corajoso da sua corte, e encarregou-o de encontrar a árvore. O homem partiu no dia seguinte, munido de dinheiro suficiente para conseguir informações, comida, e todo o necessário para atingir sua meta. Percorreu cidades, planícies, montanhas, perguntando e oferecendo recompensas; as pessoas honestas diziam que tal árvore não existia, os cínicos demonstravam respeito irônico, e alguns trapaceiros lhe enviaram a lugares remotos, apenas com o objetivo de conseguir algumas moedas em troca. Depois de decepções, o homem resolveu renunciar à sua busca; embora tivesse admiração por seu soberano, iria voltar com as mãos vazias. Sabia que com isso perderia sua honra, mas estava cansado, e convencido de que a tal árvore não existia.

No caminho de volta, ao subir uma pequena colina, lembrou-se de que ali vivia um sábio. E pensou: "não tenho mais esperança de encontrar o que queria, mas posso pedir sua bênção, e implorar para que reze pelo meu destino".

Ao chegar diante do sábio, não aguentou e caiu em prantos.

- Por que estás tão desesperado, meu filho?, perguntou o homem santo.

- O rei me encarregou de encontrar uma árvore que era única no mundo; seu fruto nos faz viver para sempre. Sempre cumpri minhas tarefas com lealdade e coragem, mas desta vez estou voltando com as mãos vazias.

O sábio começou a rir:

- Isto que você está buscando existe, e é feito da água da Vida que provém do infinito oceano de Deus. O seu erro foi tentar buscar uma forma, com um nome.
Às vezes isso se chama ‘árvore', outras vezes ‘sol', outras vezes ‘nuvem', e a podemos chamar de qualquer coisa que exista sobre a face da terra. Entretanto, para conseguir encontrar este fruto, é preciso renunciar à forma, e buscar o conteúdo.
Qualquer coisa onde está a presença da Criação é eterna em si mesma. Nada pode ser destruído; quando nosso coração para de bater, ainda assim nossa essência se transforma na natureza ao redor. Podemos virar árvores, gotas de chuva, plantas, ou até mesmo outro ser humano.

Por que deter-se na palavra ‘árvore', e esquecer que somos imortais? Renascemos sempre em nossos filhos, no amor que manifestamos para com o mundo, em cada um dos gestos de generosidade e caridade que praticamos.

Volte e diga ao rei que ele não precisa se preocupar em encontrar um fruto de uma árvore mágica: cada atitude e decisão que tomar agora, irá permanecer por muitas gerações. Peça, portanto, que seja justo com seu povo; se ele fizer seu trabalho com dedicação, ninguém o esquecerá, e seu exemplo irá influenciar a história do seu povo, e estimular seus filhos e netos a agirem sempre da melhor maneira possível.

E diz ainda: todo aquele que busca apenas um nome, sempre permanecerá ligado à aparência, sem jamais descobrir o mistério oculto das coisas, e o milagre da vida.
Todas as lutas que enfrentamos são por causa de nomes: propriedade, ciúme, riqueza, imortalidade. Entretanto, quando nos esquecemos do nome e buscamos a realidade que se esconde atrás das palavras, teremos tudo que desejamos - e, além disso, teremos paz de espírito.



Palavra de fé: “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; quem não crê no Filho não verá a vida. Mas sobre ele pesa a ira de Deus”. (João 3,36)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Complicações da busca

Nasrudin e ovo
Certa manhã, Nasrudin – o grande místico sufi que sempre fingia ser louco – colocou um ovo embrulhado em um lenço, foi para o meio da praça de sua cidade, e chamou aqueles que estavam ali.
- Hoje teremos um importante concurso! – disse – Quem descobrir o que está embrulhado neste lenço, eu dou de presente o ovo que está dentro!
As pessoas se olharam, intrigadas, e responderam: - Como podemos saber? Ninguém aqui é capaz de fazer adivinhações!
Nasrudin insistiu: - O que está neste lenço tem um centro que é amarelo como uma gema, cercado de um líquido da cor da clara, que por sua vez está contido dentro de uma casca que quebra facilmente. É um símbolo de fertilidade, e nos lembra dos pássaros que voam para seus ninhos. Então, quem pode me dizer o que está escondido?
Todos os habitantes pensavam que Nasrudin tinha em suas mãos um ovo, mas a resposta era tão óbvia, que ninguém resolveu passar vergonha diante dos outros.
E se não fosse um ovo, mas algo muito importante, produto da fértil imaginação mística dos sufis? Um centro amarelo podia significar algo do sol, o líquido ao redor talvez fosse um preparado alquímico. Não, aquele louco estava querendo fazer alguém de ridículo.
Nasrudin perguntou mais duas vezes, e ninguém se arriscou a dizer algo impróprio.
Então ele abriu o lenço e mostrou a todos o ovo.
- Todos vocês sabiam a resposta – afirmou. – E ninguém ousou traduzí-la em palavras.
“É assim a vida daqueles que não tem coragem de arriscar: as soluções nos são dadas generosamente por Deus, mas estas pessoas sempre procuram explicações mais complicadas, e terminam não fazendo nada.”


Deus e o amor do homem
Um homem chegou até o filósofo Ramanuja, e pediu:
- Mostre-me o caminho até Deus.
- Você já se apaixonou por alguém? – perguntou Ramanuja.
- Apaixonar-me? O que o grande mestre quer dizer com isso? Eu prometi a mim mesmo jamais me aproximar de uma mulher, fujo delas como quem tenta escapar de uma doença.
“Eu sequer as olho: quando passam, fecho os meus olhos.”
- Procure voltar ao seu passado, e tentar descobrir se nunca, em toda a sua vida, houve algum momento de paixão que deixasse seu corpo e seu espírito cheios de fogo.
- Vim até aqui para aprender como rezar, e não como me apaixonar por uma mulher. Quero ser guiado até Deus, e o senhor fica insistindo em me conduzir até os prazeres do mundo? Não entendo o que deseja me ensinar.
Ramanuja ficou em silêncio por alguns minutos, e finalmente disse: - Não posso ajudá-lo. Se você ainda não teve uma experiência de amor, você nunca conseguirá experimentar a paz de uma oração. Portanto, volte para sua cidade, apaixone-se, e só me procure novamente quando sua alma estiver cheia de momentos felizes.
“Apenas uma pessoa que entende o amor, pode entender o significado da oração. Porque o amor por alguém é uma prece dirigida ao coração do Universo, uma prece que Deus colocou nas mãos de cada ser humano como um presente.”



Palavra de fé: “Referi-vos essas coisas para que tenhais a paz em mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo”.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Sobre o tempo e a sabedoria

Ajudando nos problemas

Pela manhã, o discípulo foi visitar seu mestre.
- Tenho um importante problema para resolver – disse.
- Gostaria que me ajudasse, porque tenho pressa.
- Como posso ajudá-lo? Eu posso saber como me comportar diante de determinado problema, mas esta é a minha maneira de agir. Se você está procurando crescer, observe os outros – mas jamais procure agir exatamente como eles. Cada pessoa tem um caminho diferente nesta vida.
“Não nos transformamos em mestres porque sabemos repetir o que os mestres fazem, mas porque aprendemos a pensar por nós mesmos. Descubra sua própria luz – ou passará o resto da vida sendo um pálido reflexo da luz alheia”.


A iluminação em sete dias

Um mestre zen dizia:
- Buda afirmou aos seus discípulos: quem se esforça, pode alcançar a iluminação em sete dias. Se não conseguir, com certeza alcançará em sete meses, ou em sete anos.
Entusiasmado, o jovem perguntou como conseguiria chegar à sabedoria em sete dias.
- Concentração – foi a resposta.
O jovem começou a praticar - mas em dez minutos já havia se distraído. Recomeçou, e de novo perdeu a concentração.
Depois de uma semana, não havia conseguido nada de concreto, mas estava mais atento a sua ansiedade e suas fantasias. Aos poucos, foi prestando atenção em tudo que o distraía, e achou que não estava perdendo tempo, mas se acostumando consigo mesmo.
Um belo dia, o rapaz decidiu que não era preciso chegar tão rápido a sua meta, já que o caminho estava lhe ensinando muitas coisas.
E foi neste momento que se tornou um iluminado.



Palavra de fé: “Os que a procuram encontram-na. Ela antecipa-se aos que a desejam”. (Sabedoria 6,13)

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O guerreiro da luz e suas contradições



Amor e combate

O guerreiro da luz às vezes luta com quem ama.

Aprendeu que o silêncio significa o equilíbrio absoluto do corpo, do espírito, e da alma. O homem que preserva a sua unidade, jamais é dominado pelas tempestades da existência; tem forças para ultrapassar as dificuldades e seguir adiante.

Entretanto, muitas vezes sente-se desafiado por aqueles a quem procura ensinar a arte da espada. Seus discípulos o provocam para um combate e o guerreiro mostra sua capacidade: com alguns golpes lança as armas dos alunos por terra, e a harmonia volta ao local onde se reúnem.

"Por que fazer isto se és tão superior?" - pergunta um viajante.

"Porque, desta maneira, mantenho o diálogo" - responde o guerreiro.


Solidão e dependência

Quando um guerreiro sofre uma injustiça, geralmente procura ficar sozinho, para não mostrar sua dor aos outros. É um comportamento bom e mau ao mesmo tempo. Uma coisa é deixar que seu coração cure lentamente as próprias feridas. Outra coisa é ficar em meditação profunda todo o dia, com medo de parecer fraco.

Dentro de cada um de nós existe um anjo e um demônio, e suas vozes são muito parecidas. Diante da dificuldade o demônio alimenta essa conversa solitária, procurando nos mostrar como somos vulneráveis; e o anjo precisa da boca de alguém para se manifestar.


Pressa e paciência

Um guerreiro da luz precisa de paciência e rapidez ao mesmo tempo. Os dois maiores erros da estratégia são: agir antes da hora, ou deixar que a oportunidade passe longe.

Para evitar isto, o guerreiro trata cada situação como se fosse única e não aplica fórmulas, receitas, ou opiniões alheias.

O califa Moauiyat perguntou a Omr Ben Al-Aas qual era o segredo de sua grande habilidade política:

"Nunca me meti em assunto sem ter estudado previamente a retirada; por outro lado, nunca entrei e quis logo sair correndo" - foi a resposta.


Paz e atividade

No intervalo do combate, o guerreiro descansa.

Muitas vezes passa dias sem fazer nada, porque seu coração exige.

Mas sua intuição permanece alerta. Ele não comete o pecado capital da Preguiça, porque sabe onde ela o pode conduzir: à sensação morna das tardes de domingo, onde o tempo passa - e nada mais.

Um guerreiro descansa e ri. Mas está sempre atento.
Um anjo e um demônio

Um guerreiro sabe que um anjo e um demônio disputam a mão que segura a espada.

Diz o demônio: "você vai fraquejar. Você não vai saber o momento exato. Você está com medo".

Diz o anjo: "você vai fraquejar. Você não vai saber o momento exato. Você está com medo".

O guerreiro fica surpreso. Ambos disseram a mesma coisa.

Então o demônio continua: "deixa que eu te ajude".

E diz o anjo: "eu te ajudo".

Nesta hora, o guerreiro percebe a diferença. As palavras são as mesmas, mas os aliados são diferentes.

Então ele dedica sua vitória a Deus. E, com a confiança dos valentes, escolhe a mão de seu anjo.



Palavra de fé: “Vós irmãos, não vos canseis de fazer o bem”. (2 Tessalonicenses 3,13)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O Mal quer que o Bem seja feito

Conta o poeta persa Rumi que Mo'avia, o primeiro califa da linhagem de Ommiad, que estava um dia dormindo em seu palácio, quando foi despertado um estranho homem.

- Quem é você? - perguntou.

- Sou Lúcifer - foi a resposta.

- E o que deseja aqui?

- Já está na hora de sua prece, e você continua dormindo.

Mo'avia ficou impressionado. Como é que o príncipe das trevas, aquele que deseja sempre a alma dos homens de pouca fé, estava procurando ajudá-lo a cumprir um dever religioso?

Mas Lúcifer explicou:

- Lembre-se que eu fui criado como um anjo de luz. Apesar de tudo que aconteceu na minha existência, não posso esquecer minha origem. Um homem pode viajar para Roma ou Jerusalém, mas sempre carrega em seu coração os valores de sua pátria: o mesmo acontece comigo. Ainda amo o Criador, que me alimentou quando era jovem, e me ensinou a fazer o bem. Quando me revoltei contra Ele, não foi porque não o amasse - muito pelo contrário, eu o amava tanto que tive ciúme quando criou Adão. Naquele momento, eu quis desafiar o Senhor, e isso me arruinou; mesmo assim, ainda me lembro das bênçãos que me foram dadas um dia, e talvez agindo bem eu possa retornar ao Paraíso.

Mo'avia respondeu:

- Não posso acreditar no que me diz. Você foi responsável pela destruição de muita gente na face da terra.

- Pois acredite - insistiu Lúcifer. - Só Deus pode construir e destruir, porque é Todo-Poderoso. Foi Ele, ao criar o homem, que colocou nos atributos da vida o desejo, a vingança, a compaixão e o medo. Portanto, quando olhar o mal à sua volta, não me culpe, porque eu sou apenas o espelho daquilo que acontece de ruim.

Sabendo que alguma coisa estava errada, Mo'avia começou a rezar desesperadamente para que Deus o iluminasse. Passou a noite inteira conversando e discutindo com Lúcifer, e apesar dos argumentos brilhantes que ouvia, não se deixava convencer.

Quando o dia já estava amanhecendo, Lúcifer finalmente cedeu, explicando:

- Está bem, você tem razão. Quando esta tarde cheguei para despertá-lo de modo a não perder a hora da prece, minha intenção não era aproximá-lo da Luz Divina.





"Eu sabia que, deixando de cumprir sua obrigação, você sentiria uma profunda tristeza, e durante os próximos dias iria rezar com o dobro de fé, pedindo perdão por ter esquecido o ritual correto. Aos olhos de Deus, cada uma destas rezas feitas com amor e arrependimento, valeriam o equivalente a duzentas orações feitas de maneira automática e ordinária. Você terminaria mais purificado e inspirado, Deus o amaria mais, e eu estaria mais longe de sua alma".

Lúcifer desapareceu, e um anjo de luz entrou logo em seguida:

- Nunca se esqueça da lição de hoje - disse para Mo'avia. - Às vezes o mal se disfarça em emissário do bem, mas sua intenção escondida é provocar mais destruição.

Naquele dia, e nos dias seguintes, Mo'avia orou com arrependimento, compaixão e fé. Suas preces foram ouvidas mil vezes por Deus.



Reflexão

Inspirada em Mahatma Gandhi:

"Um NÃO pronunciado com convicção profunda, é muito mais importante que um SIM dito para agradar, ser simpático, ou - o que é pior - evitar problemas que fazem parte do seu caminho, e precisam ser resolvidos".




Palavra de fé: “Feliz o povo que vos sabe louvar: caminha na luz da vossa face Senhor”. (Salmo 88, 16)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Histórias do coração publicadas em livro

Do excelente livro “Histórias da Alma, Histórias do Coração”. (Christina Feldman e Jack Kornfield, Ed. Pioneira), tiramos algumas histórias para esta e outras colunas. Aqui vão algumas delas:

Estou de passagem:

No século passado, um turista americano foi ao Cairo visitar o famoso rabino polonês Hafez Ayim. O turista ficou surpreso ao ver que o rabino morava num quarto simples, cheio de livros, onde as únicas peças de mobília eram uma mesa e um banco.

- Rabino, onde estão seus móveis? - perguntou o turista.

- E onde estão os seus? – retorquiu Hafez.

- Os meus? Mas eu só estou aqui de passagem!

- Eu também – disse o rabino.

Convencer os outros

Um profeta chegou certa vez a uma cidade para converter seus habitantes. A princípio, as pessoas ficaram entusiasmadas com o que ouviam. Mas, pouco a pouco, a rotina da vida espiritual era tão difícil que homens e mulheres se afastaram, até que não ficou uma só alma para ouvi-lo.

Um viajante, ao ver o profeta pregando sozinho, perguntou:

- Por que continuas exaltando as virtudes e condenando os vícios? Não vês que ninguém aqui te escuta?

- No começo, eu esperava transformar as pessoas – disse o profeta. – Se ainda hoje continuo pregando é apenas para impedir que as pessoas me transformem.


Depois da morte

O imperador mandou chamar o mestre zen Gudo à sua presença.

- Gudo, ouvi falar que você é um homem que tudo compreende – disse o imperador. – Eu gostaria de saber o que acontece com o homem iluminado com o pecador, depois que ambos morrem.

- Como vou saber? – respondeu Gudo.

- Mas, afinal de contas, você não é um mestre iluminado?

- Sim, senhor. Mas não sou um mestre morto!

A reflexão

O padre Alan Jones diz que para a construção de nossa alma precisamos das Quatro Forças Invisíveis: Amor, Morte, Poder e Tempo.

É necessário amar, porque somos amados por Deus. É necessária a consciência da morte para entender bem a vida. É necessário lutar para crescer sem se deixar seduzir pelo poder que conseguimos com isto, pois sabemos que ele não vale nada. Finalmente, é necessário aceitar que a nossa alma, embora seja eterna, está neste momento presa na teia do tempo, com suas oportunidades e limitações. Assim, temos que agir como se o tempo existisse e fazer o possível para valorizar cada segundo.

Estas Quatro Forças não podem ser tratadas como problemas a serem resolvidos, porque são muitos mais importantes que isto. E estão além de qualquer controle. Precisamos aceitá-las e deixar que nos ensinem o que precisamos aprender.



Palavra de fé: “Dizem, com efeito, nos falsos raciocínios: “Curta é a nossa vida, e cheia de tristezas; para a morte não há remédio algum; não há notícia de alguém que tenha da região dos mortos”. (Sabedoria 2,1)

quinta-feira, 17 de março de 2011

A força da alegria

Khalil Gibran diz que há vinte séculos os homens adoram falar sobre a fraqueza na pessoa de Jesus e não compreendem Sua força. Jesus não viveu como um covarde e não morreu queixando-se e sofrendo. Viveu como um revolucionário e foi crucificado como um rebelde.


“Não era um pássaro de asas partidas, mas uma tempestade violenta, que quebrava as asas tortas. Não era uma vítima dos seus perseguidores e não sofreu nas mãos de seus executores – mas era livre diante de todos”.


“Jesus não desceu ao mundo para destruir nossas casas e com suas pedras construir conventos. Ele veio insuflar uma alma nova e forte, que faz de cada coração um templo, de cada alma um altar e de cada ser humano um sacerdote”.


Olhando com cuidado sua vida, veremos que, embora soubesse que sua paixão era inevitável, procurou nos dar o sentido da alegria em cada gesto. Como eu disse em uma das colunas passadas, Ele deve ter pensado bastante antes de decidir qual o primeiro milagre que devia realizar. Deve ter considerado a cura de um morto, a expulsão de um demônio, algo que seus contemporâneos considerassem como “uma atitude nobre”. Afinal, era a primeira vez que se mostraria ao mundo como é o Filho de Deus.


E está escrito: seu primeiro milagre foi transformar água em vinho para animar uma festa de casamento.


Que a sabedoria deste gesto nos inspire e esteja sempre presente em nossas almas: a busca espiritual é compaixão, entusiasmo e alegria.




Palavra de fé: “Se teu amigo for constante, ele te será como um igual, e agirá livremente como os de tua casa”. (Eclesiástico 6,11)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Da importância dos outros (a brasa solidária)

Juan ia sempre aos serviços dominicais de sua congregação. Mas começou a achar que o pastor dizia sempre as mesmas coisas e parou de freqüentar a igreja. Dois meses depois, em uma fria noite de inverso, o pastor foi visitá-lo.


“Deve ter vindo para tentar convencer-me a voltar” – pensou Juan consigo mesmo. E então imaginou que não podia dizer a verdadeira razão: os sermões repetitivos. Precisava encontrar uma desculpa e enquanto pensava, colocou duas cadeiras diante da lareira e começou a falar sobre o tempo.


O pastor não disse nada. Juan, depois de tentar inutilmente puxar conversa por algum tempo, também se calou. Os dois ficaram em silêncio, contemplando o fogo por quase meia hora.


Foi então que o pastor levantou-se e com a ajuda de um galho que ainda não tinha queimado, afastou uma brasa, colocando-a longe do fogo.


A brasa, como não tinha suficiente calor para continuar queimando, começou a apagar. Juan, mais que depressa, atirou-a de volta ao centro da lareira.


- Boa noite – disse o pastor, levantando-se para sair.


- Boa noite e muito obrigado – respondeu Juan. – A brasa longe do fogo, por mais brilhante que seja, terminará extinguindo rapidamente. O homem longe dos seus semelhantes, por mais inteligente que seja, não conseguirá conservar seu calor e sua chama. Voltarei à igreja no próximo domingo.




Palavra de fé: “Espera no Senhor e sê forte! Fortifique-se o teu coração e espera no Senhor!”. (Salmo 26,14)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O que salva o amor (para ler e refletir)

L. Barbosa conta a história de uma ilha onde viviam os principais sentimentos do homem: ALEGRIA, TRISTEZA, VAIDADE, SABEDORIA E AMOR. Um dia, a ilha começou a afundar no oceano. Todos conseguiram alcançar seus barcos, menos o AMOR.


Quando foi pedir a RIQUEZA que o salvasse, esta disse: “Não posso, estou carregada de jóias e ouro”.


Dirigiu-se ao barco da VAIDADE, que respondeu: “Sinto muito, mas não quero sujar o meu barco”.


O AMOR correu para a SABEDORIA, mas ela também recusou, dizendo: “Quero estar sozinha, estou refletindo sobre a tragédia e mais tarde vou escrever um livro sobre isto”.


O AMOR começou a se afogar. Quando estava quase morrendo, aparecer um barco – conduzido por um velho – que o terminou salvando. “Obrigado”, disse assim que se refez do susto. “Mas quem é você?”.


“Sou o TEMPO”, respondeu o velho. Só o TEMPO é capaz de salvar o AMOR.



Palavra de fé: “O homem tem a vida breve e cheia de inquietações”. (Jô 14, 1)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Duas jóias preciosas

Do padre cisterciense Marcos Garcia, em Burgos, na Espanha: “Às vezes Deus retira uma determinada benção para que a pessoa possa compreendê-Lo, além dos favores e dos pedidos. Ele sabe até que ponto pode provar uma alma – e nunca vai além deste ponto. Nestes momentos, jamais podemos dizer ‘Deus me abandonou’. Ele jamais faz isto. Nós é que podemos, às vezes, abandoná-Lo. Se o Senhor nos coloca diante de uma grande prova, também sempre nos dá as graças suficientes – eu diria, mais que suficientes – para ultrapassá-la”.

A esse respeito, a leitora Camila Galvão Piva me envia uma interessante história, intitulada “As duas jóias”: Um rabino muito religioso vivia feliz com sua família – uma esposa admirável dois filhos queridos. Certa vez, por causa de seu trabalho, teve que se ausentar de casa por vários dias. Justamente quando estava fora, um grave acidente de carro matou os dois meninos.

Sozinha, a mãe sofreu em silêncio. Mas sendo uma mulher forte, sustentada pela fé e pela confiança em Deus, suportou o choque com dignidade e bravura. Entretanto, como dar ao esposo a triste notícia? Embora também sendo um homem de fé, ele já tinha sido internado por problemas cardíacos no passado, e a mulher temia que o conhecimento da tragédia acarretasse também a sua morte.

Restava apenas rezar para que Deus lhe aconselhasse a melhor maneira de agir. Na véspera da chegada do marido, orou muito – e recebeu a graça de uma resposta.

No dia seguinte, o rabino retornou ao lar, abraçou longamente a esposa e perguntou pelos filhos. A mulher disse que não se preocupasse com isso, tomasse seu banho, descansasse.

Horas depois os dois sentaram-se para almoçar. Ela lhe pediu detalhes sobre a viagem, ele contou tudo o que tinha vivido, falou sobre a misericórdia de Deus – mas tornou a perguntar pelos meninos.

A esposa, numa atitude, um tanto embaraçada, respondeu ao marido:

“- Deixe os filhos, depois nos preocupamos com eles. Primeiro quero que me ajude a resolver um problema que considero grave”.

O marido já preocupado, perguntou novamente:

“- O que aconteceu? Notei você abatida! Fale tudo o que lhe passa pela alma e tenho certeza que resolveremos juntos qualquer problema, com a ajuda de Deus”.

“- Enquanto você estava ausente, um amigo nosso visitou-me e deixou duas jóias de valor incalculável, para que as guardasse. São jóias muito preciosas! Jamais vi algo tão belo! Ele vem buscá-las e eu não estou disposta a devolvê-las, pois já me afeiçoei a elas. O que você me diz?”.

“- Ora mulher! Não estou entendendo o seu comportamento! Você nunca cultivou vaidades!”.

“É que nunca havia visto jóias assim! Não consigo aceitar a idéia de perdê-las para sempre!”.
E o rabino respondeu com firmeza e muita certeza:

“- Ninguém perde o que não possui. Retê-las equivaleria a roubo! Vamos devolvê-las, eu a ajudarei a superar a falta delas. Faremos isso juntos, hoje mesmo”.

“- Pois bem, meu querido, seja feito a sua vontade. O tesouro será devolvido. Na verdade, isso já foi feito. As jóias preciosas eram nossos filhos. Deus os confiou a nossa guarda e durante a sua viagem veio buscá-los. Eles se foram...”.

O rabino compreendeu na mesma hora. Abraçou a esposa e juntos derramaram muitas lágrimas – mas tinha entendido a mensagem e a partir daquele dia lutaram para superar juntos a perda.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O círculo da alegria e da felicidade

Conta Bruno Ferrero que, certo dia, um camponês bateu com força na porta de um convento. Quando o irmão porteiro abriu, ele lhe estendeu um magnífico cacho de uvas.

- Caro irmão porteiro, estas são as mais belas produzidas pelo meu vinhedo. E venho aqui para dá-las de presente.

- Obrigado! Vou levá-las imediatamente ao abade, que ficará alegre com esta oferta.

- Não! Eu as trouxe para você.

- Para mim? – o irmão ficou vermelho, porque achava que não merecia tão belo presente da natureza.

- Sim! – insistiu o camponês. – Porque sempre que bati na porta, você abriu. Quando precisei de ajuda porque a colheita estava destruída pela seca, você me dava um pedaço de pão e um copo de vinho todos os dias. Eu quero que este cacho de uvas traga-lhe um pouco do amor do sol, da beleza da chuva e do milagre de Deus, que o fez nascer tão belo.

O irmão porteiro colocou o cacho diante de si e passou a manhã inteira a admirá-lo: era realmente lindo. Por causa disso, resolveu entregar o presente ao abade, que sempre o havia estimulado com palavras de sabedoria.

O abade ficou muito contente com as uvas, mas lembrou-se que havia no convento um irmão doente, e pensou: “Vou dar-lhe o cacho. Quem sabe, pode trazer alguma alegria à sua vida”.

E assim o fez. Mas as uvas não ficaram muito tempo no quarto do irmão doente, porque este refletiu: “O irmão cozinheiro tem cuidado de mim por tanto tempo, alimentando-me com o que há de melhor. Tenho certeza que se alegrará com isso”.

Quando o irmão cozinheiro apareceu na hora do almoço, trazendo sua refeição, ele entregou-lhe as uvas.

- São para você – disse o irmão doente. – Como sempre está em contato com os produtos que a natureza nos oferece, saberá o que fazer com esta obra de Deus.

O irmão cozinheiro ficou deslumbrado com a beleza do cacho e fez com que o seu ajudante reparasse a perfeição das uvas. Tão perfeitas, pensou ele, que ninguém para apreciá-las melhor que o irmão sacristão. Como era ele o responsável pela guarda do Santíssimo Sacramento e muitos no mosteiro o viam como um homem santo, ele seria capaz de valorizar melhor aquela maravilha da natureza.

O sacristão, por sua vez, deu as uvas de presente ao noviço mais jovem, de modo que este pudesse entender que a obra de Deus está nos menores detalhes da criação. Quando o noviço o recebeu, o seu coração encheu-se da Glória do Senhor, porque nunca tinha visto um cacho tão lindo. Na mesma hora lembrou-se da primeira vez que chegara ao mosteiro e da pessoa que lhe tinha aberto a porta. Fora este gesto que lhe permitira estar hoje naquela comunidade de pessoas que sabiam valorizar os milagres.

Assim, pouco antes do cair da noite, ele levou o cacho de uvas para o irmão porteiro.
- Coma e aproveite – disse o noviço. – Porque você passa a maior parte do tempo aqui sozinho e estas uvas o fará muito feliz.

O irmão porteiro entendeu que aquele presente tinha lhe sido realmente destinado, saboreou cada uma das uvas daquele cacho e dormiu feliz.

Desta maneira, o círculo foi fechado. O círculo de felicidade e alegria, que sempre se estende em torno das pessoas generosas.




Palavra de fé: “Um amigo fiel é uma poderosa proteção: quem o achou, descobriu um tesouro”. (Eclesiástico 6, 14)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Eu quero encontrar Deus

O homem chega exausto no mosteiro:

- Venho procurando Deus há muito tempo, falou. Talvez o senhor me ensine de maneira correta de encontrá-lo, sugeriu o viajante.

- Entre e veja nosso convento, disse o padre, pegando-o pelas mãos e levando-o até a capela. – Aqui estão as mais belas obras de arte do século 16, que retratam a vida do Senhor e Sua glória junto aos homens.

O homem aguardou, enquanto o padre explicava cada uma das belas pinturas e esculturas que adornavam a capela. No final, repetiu a pergunta: - Muito bonito tudo o que vi. Mas eu gostaria de aprender a maneira mais correta de encontrar Deus.

- Deus!, respondeu o padre. – Você disse muito bem: Deus! E levou o homem até o refeitório, onde estava sendo preparado o jantar dos monges.

- Olhe à sua volta: daqui a pouco será servido o jantar, e você está convidado para comer conosco. Poderá ouvir a leitura das escrituras, enquanto sacia sua fome.

- Não tenho fome e já li todas as escrituras, insistiu o homem. – Quero aprender. Vim até aqui para encontrar Deus.

O padre de novo pegou o estranho pelas mãos e começaram a caminhar pelo claustro, que circundavam um belo jardim.

- Peço aos meus monges para manterem a grama sempre cortada, e que tirem as folhas secas da água da fonte que você vê ali no meio. Penso que este é o mosteiro mais limpo de toda a região.

O estranho caminhou um pouco com o padre, depois pediu licença, dizendo que precisava ir embora.

- Você não vai ficar para jantar? – perguntou o padre.

Enquanto montava no seu cavalo, o estranho comentou: - Parabéns por sua bela igreja, pelo refeitório acolhedor, pelo pátio impecavelmente limpo. Entretanto, eu viajei muitas léguas apenas para aprender a encontrar Deus, e não para deslumbrar-me com eficiência, conforto e disciplina.

Um trovão caiu do céu, o cavalo relinchou, e a terra foi sacudida. De repente, o homem tirou seu disfarce, e o padre viu que estava diante de Jesus.

- Deus está onde o deixam entrar – disse Jesus. – Mas vocês fecharam a porta deste mosteiro para ele, usando regras, orgulho, riqueza, ostentação. Da próxima vez que um estranho se aproximar pedindo para encontrar Deus, não mostre o que vocês conseguiram em nome Dele. Escute e pergunta e tente respondê-la com amor, caridade e simplicidade.


Palavra de fé: “Buscai o Senhor, já que Ele se deixa encontrar, invocai-o já que está perto”. (Isaias 55, 6)

sábado, 20 de novembro de 2010

O jogral de Nossa Senhora

Conta uma lenda medieval que, com o Menino Jesus nos braços, Nossa Senhora resolveu descer a Terra e visitar um mosteiro.


Orgulhosos, todos os padres fizeram uma grande fila e cada um postava-se diante da Virgem, procurando homenagear a mãe e o filho. Um declamou belos poemas, outro mostrou suas iluminuras para a Bíblia. Um terceiro disse o nome de todos os santos. E, assim por diante, monge após monge mostrou seu talento e sua dedicação aos dois.


No último lugar da fila havia um padre, o mais humilde do convento, que nunca havia aprendido os sábios textos da época. Seus pais eram pessoas simples, que trabalhavam num velho circo das redondezas, e tudo que lhe haviam ensinado era tirar bolas para cima e fazer malabarismos.


Quando chegou sua vez, os outros padres quiseram encerrar as homenagens, porque o antigo malabarista não tinha nada de importante para dizer e podia desmoralizar a imagem do convento. Entretanto, no fundo do seu coração, também ele sentia uma imensa necessidade de dar alguma coisa de si para Jesus e a Virgem.


Envergonhado, sentindo o olhar reprovador dos seus irmãos, ele tirou algumas laranjas do bolso e começou a jogá-las para cima, fazendo malabarismos – que era a única coisa que sabia fazer. Foi só neste instante que o Menino Jesus sorriu e começou a bater palmas no colo de Nossa Senhora. E foi para esse que a Virgem estendeu os braços, deixando que segurasse um pouco a criança.




Palavra de fé: “Meu filho, faze o que fazes com doçura, e mais do que a estima dos homens, ganharás o afeto deles”. (Eclesiástico 3, 19)